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Vítor Lopes (Piricas) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Carlos Fernandes   
Sexta, 01 Maio 2009 01:41
Trazemos hoje a esta secção, com todo o merecimento, António Vítor da Silva Lopes, de seu nome completo, mas que conhecemos carinhosamente por Piricas.

Nasceu em Lisboa, na Freguesia de Santos, a 18 de Agosto de 1932, contando, portanto, com 73 anos de idade.
Ainda gaiato, começou a dar uns pontapés na bola, como, aliás, era habitual entre os rapazes daquela época, ditosos eles, livres de computadores e passatempos electrónicos. A bola trapeira era a rainha dos brinquedos.

De escelente compleição física (78 quilos de peso, bem repartidos entre o seu 1,78 m de altura), apareceu, certo dia, na Tapadinha, a provar fortuna. Tinha carácter, deu nas vistas pelo apego à luta e logo ficou a jogar nos juvenis. Na temporada seguinte continuou a sua progressão desportiva.
Difícil era atingir a primeira categoria do Atlético, recheada de jogadores categorizados e experientes, mas Piricas, caso raro na época, subiu directamente da turma de juniores à equipa principal, pela mão do húngaro Janos Biri, então treinador alcantarense.

Estreou-se no "onze" de honra, a 25 de Novembro de 1951, com apenas 19 anos, recém celebrados, em jogo a contar para o Campeonato Nacional da 1ª. Divisão, contra o Vitória Sport Clube (Guimarães), na Tapadinha.
Feliz estreia, o nosso clube bateu os minhotos por concludentes 4-0, com vantagem "atlética", já ao intervalo, por 2-0.
Anotemos os nomes dos artífices desse triunfo: Correia; Baptista, Armindo Costa e Vítor Lopes; Vítor Gaspar e António Morais; Carlos Martinho, Armando Carneiro, Ben David, Rogério Simões e Silva Pereira, numa disposição 3-2-5, hoje completamente em desuso.
Arbitrou o desafio, o juiz de Leiria, António Serrano.
Os golos foram repartidos entre Armando Carneiro e Ben David, dois cada um, e o Atlético ainda podia ter dilatado o marcador pois falhou uma grande penalidade, desperdiçada por Ben David, que atirou o esférico por cima da barra.
Piricas teve, pois, auspiciosa estreia. Curioso o facto de Armando Carneiro ter sido o redactor, à época, para o nosso jornal, da crónica desse encontro e eis o que escreveu sobre o comportamento do nóvel defesa esquerdo: - "Fazemos a terminar, uma menção especial à estreia de Vítor Lopes. A sua actuação excedeu as nossas previsões".

Casado com Maria Lisete Augusto Lopes, pai de uma filha que, ainda hoje, não perde um jogo do Atlético, Vítor Lopes era serralheiro de profissão, jogava e trabalhava ao mesmo tempo. Nunca fez do futebol único ganha-pão, ao contrário do que sucede nos nossos dias, onde qualquer bípede que acerte dar dois toques seguidos na "borracha" se converte em "profissional de plástico".

Vítor Lopes era todo genica, todo garra, um jogador que sentia a camisola como poucos. Alcantarense até à medula, acompanhava e continua a acompanhar, atento, as evoluções da colectividade, como qualquer prosélito mais.

Simples e generoso, símbolo da tradicional mística alcantarense, contam-se dele numerosas histórias, tão hilariantes como verdadeiras. Aqui ficam dois episódios expressivos que protagonizou durante a sua longeva etapa futebolística.

O Futebol Clube do Porto deslocou-se à Tapadinha para defrontar o Atlético, num jogo correspondente ao "Nacional" mais importante do futebol português. Os nortenhos tinham um magnífico conjunto que, aliás, acabaria por sagrar-se campeão do país, nessa temporada, e do qual fazia parte Carlos Duarte, um extremo-direito mulato, muito rápido e hábil, que atravessava óptimo período de forma. Ao nosso Piricas cabia-lhe a difícil tarefa de o marcar.
Iniciado o prélio, aos poucos segundos, logo na primeira jogada, o esférico foi-lhe parar aos pés. Vítor Lopes correu como um galgo direitinho ao seu opositor e atirou-lhe uma valente ripada que fez o portista beijar a relva. Atónito, ainda no chão, olhou para o nosso defesa e quis saber:
- Gaita! Já?
Obteve resposta imediata:
- Pois, o árbitro já apitou...

A segunda cena teve lugar no campo do Barreirense, Dom Manuel de Melo, e foi-me relatada, ainda há pouco, entre sonoras gargalhadas, por Eduardo Martins, o popular "Quatrocentos", que até ali se deslocou para acompanhar e apoiar o Atlético. Instalado no "peão", mesmo junto à vedação, a certa altura do desafio, o nosso querido consórcio e antigo basquetebolista, talvez para o motivar gritou-lhe:
- Ó Piricas, atira-me um, cá para o pé de mim!...
Instantes depois, Faia, magnífico jogador e rapaz pacato, com a bola controlada, teve o azar de pisar território à guarda do nosso defesa e, pronto, lá foi ele pelo ar, juntamente com a bandeirola do meio-campo, ainda existente naquela época, para marcar a linha divisória central do terreno de jogo, enquanto o voluntarioso Piricas confirmava a execução do pedido, exclamando para o "Quatrocentos":
- Apanha! Lá vai um...

Nota da redacção: Vítor Lopes já se encontrava muito doente na altura em que este artigo originalmente foi publicado... E acabou por falecer pouco tempo depois, a 10 de Novembro de 2005. Paz à sua alma!

Este artigo tem a autoria de Carlos Fernandes, é o nº 8 da colecção "As Nossas Glórias" e foi originalmente publicado no jornal "O Atlético" nº 55, Setembro de 2005.

Actualizado em Sábado, 08 Agosto 2009 15:22
 
 
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