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Germano de Figueiredo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Luís Howell   
Domingo, 31 Janeiro 2010 01:08

Falar de Germano é sem dúvida a tarefa mais difícil que alguma vez se me afigurou desde que abracei este delírio e desafio constante que é editar mensalmente este jornal.

Difícil porque Germano dispensa apresentações. Ele é somente um dos ícones vivos do Clube, talvez o de maior expressão, não sei, mas certamente o mais acarinhado pelos associados mais idosos do Atlético, aqueles que se lembram de o ver jogar.
E esta é outra dificuldade. É que do alto dos meus 39 anos de idade jamais vi Germano jogar. É pois por descrição de terceiros que fui conhecendo, ao longo da vida, as façanhas deste alcantarense com a "redondinha".
Germano é uma lenda viva. A forma como todos o veneram quando a ele se referem, os de Alcântara ou os que com ele privaram ao longo da vida, só se compara, salvaguardando as proporções respectivas, e o regionalismo da situação, as atenções épico-românticas que a imaginação popular sempre dispensou a Juan Manuel Fangio, o piloto Argentino, penta campeão do Mundo. Se conduzes bem, dizia-se, "pareces o Fangio", se dominas bem a bola, dizia-se, "pareces o Germano".

Assim, eu que cresci no tempo em que Eusébio era rei, ouvia falar de Germano, sem entender muito bem de quem se tratava, pela voz do meu pai, Henrique Edmundo Howell, antigo sócio nº 750 do Atlético, já há muito falecido, que me explicava que isso do "Rei Eusébio" era uma treta; afinal o melhor jogador português de todos os tempos era o Germano, do Atlético, que tinha ido para o Benfica e que por isso o clube da Luz tinha sido Campeão Europeu. Que seria da defesa do Benfica sem o Germano?
Razão para isto? Uma única, que eu ouvi boquiaberto várias vezes, quando escutava as opiniões sobre Germano, esse homem, para mim, sem rosto, que vivia no meu imaginário.
É que, dizia o meu pai, o alcantarense jogava bem a qualquer posição, desde a baliza a ponta-de-lança; enquanto que o Moçambicano (o meu pai fazia sempre questão de frisar esta questão de berço do "pantera negra") só sabia marcar golos, e a seguir lá vinha a história da final contra o Inter agregada a um rol de histórias passadas na Tapadinha ou em jogos do Atlético.

Os anos passaram e a minha opinião sobre Germano de Figueiredo foi-se consubstanciando até que tive oportunidade de o conhecer pessoalmente. Sendo ele muito avesso, como é do conhecimento geral, a tudo o que tem a ver com comunicação social, lá me insinuei perto dele, tentando combinar uma entrevista, aquando de um jantar de homenagem a Carlos Batista, o "back da morte", outro ícone vivo, este do Carcavelinhos e do Atlético. Interpelei então Germano a medo, com receio de ouvir um rotundo não! Não ouvi, encontrei um afável Germano que me foi adiantando que tinha muito gosto, somente por ser para o jornal do Atlético, pois não dava entrevistas, e foi avisando que eu não me atrevesse a publicar o que quer que fosse em outro periódico qualquer. Garanti-lhe que não e com receio que ele arrepiasse caminho apressei-me a combinar a entrevista que ocorreu alguns dias depois.
Isto passou-se em Março de 2002. Leu bem caro leitor, em Março de 2002. Foi um perfeito disparate ter-me precipitado a marcar tal entrevista. Apareci totalmente impreparado e essa é uma das razões porque tal conversa se manteve inédita. A outra razão foi que esteve previsto um jantar de homenagem a Germano de Figueiredo, no âmbito das "Tertúlias do Atlético" (lembram-se delas?), pretensão que ele nunca aceitou. E como entretanto as Tertúlias cessaram a sua actividade, a entrevista acabou por nunca ver a luz do dia, não por determinação irreversível mas porque sempre se foi esperando um momento mais apropriado.
Esse é o segundo disparate, uma vez que a publicação de uma conversa com Germano de Figueiredo não tem momento certo. Todos os momentos são oportunos.

Então, aqui está ela, sem uma vírgula mudada, tal como ocorreu naquele fim de manhã, num conhecido café do Cais do Sodré, perante o homem dos olhos tristes; para o meu pai, o melhor jogador português de todos os tempos; para mim, um verdadeiro filósofo. Que pensa e que por isso mesmo, se calhar, tem poucos motivos para rir...

Luís Sampaio Howell (LSH)- Confesso que nunca o vi jogar porque não tenho idade para isso. Confesso também que já li muito a seu respeito e que a sua melancolia, por um lado, e a sua aversão à popularidade me deixam surpreendido e curioso. Afinal quem é o Germano de Figueiredo, o do dia-a-dia, não o dos estádios que esse é do domínio público.
Germano de Figueiredo (GF)- Que quer que lhe conte. Trabalhei muitos anos nas Selecções do Reader's Digest, tive também uma pastelaria, durante algum tempo, em Alcântara, num local que foi demolido por causa da ponte, com um rapaz amigo, ainda quando jogava no Atlético, devia ter uns 23 anos. Foi uma tentativa de arranjar um modo de vida extra futebol, mas ao fim de certo tempo, não muito, verifiquei que tinha de facto mais agilidade para o futebol do que para comerciante e a sociedade com esse amigo acabou por desfazer-se naturalmente. Verifiquei que era um passo que era longo demais, que não tinha nem vocação nem tempo para comerciante e que se continuasse possivelmente prejudicaria o meu futebol e a veia de comerciante do amigo, por isso a sociedade cessou com naturalidade e eu apostei mais no futebol. Foi aliás nessa altura que percebi que nunca teria propensão a ser comerciante.

LSH- Ao entrar neste café (não vamos citar o nome para preservar a privacidade de Germano, mas julgamos que qualquer alcantarense com mais de 50 anos sabe qual é) reparei que o meu amigo é da casa e que é tratado com muito carinho. Ao vê-lo aproximar-se começaram imediatamente a confeccionar a sua bebida predilecta.
GF- Embora conheça e frequente esta casa há muitos anos, de forma assídua e regular não a frequento há tanto tempo como possa imaginar, talvez há dois anos apenas...

LSH- Ahhh! Mas tratam-no muito bem...
GF- Mas é claro, são excelentes...

LSH- Li em algumas pesquisas que fiz que se o meu amigo não tivesse sido futebolista, teria sido toureiro. Que verdade há nisto?
Aqui Germano de Figueiredo esboça um sorriso, o que como se sabe não é muito comum, aliás não conseguimos encontrar uma única fotografia em que se lhe visse um dente.
GF- Ahh! Você leu cada coisa... Isso foi o Lima de Almeida, na primeira entrevista que dei para o jornal do Atlético, já não sei há quantos anos, lembro-me que ainda era junior e...

LSH- Mas olhe que a minha fonte não foi a colecção do Jornal "O Atlético".
GF- Não me diga? Então terão ido buscar essa informação ao jornal do Atlético pois só me recordo dessa história nessa altura.

LSH- Mas era aficionado.
GF- Sim, confesso que gostava bastante de assistir a corridas de toiros, julgo que a afirmação fosse genuína quando a proferi pois gostava muito de touradas, contudo foi ideia que cedo me saiu da cabeça. Hoje confesso que aprecio menos, pois vejo as corridas com olhos de um homem da minha idade e não como um jovem que era. Os tempos passam e a razão, a cabeça de cada pessoa também vai mudando. Nessa época acompanhava as notícias das touradas nos jornais, isso e o futebol, evidentemente. Havia grandes nomes da tauromaquia, grandes toureiros, a Festa era muito mais popular que é hoje... Hoje raramente se vê artigos nos jornais sobre Corridas e jornal da especialidade que eu tenha conhecimento também não há... Era de facto um aficionado,mas só momentaneamente terei querido um dia ser toureiro e talvez por isso tenha afirmado isso ao Lima...

LSH- Saiu-lhe...
GF- Sim, possivelmente não sabia o que responder e saiu essa... Aliás, devo-lhe dizer que ainda frequentei uma escola de tauromaquia que existia em Lisboa, defronte ao Coliseu dos Recreios...

LSH- ... mas afinal havia um bichinho a morder...
GF- Acabei por desistir porque não tinha dinheiro para pagar as aulas e a Festa sempre foi uma prática para gentes com posses. Isso aconteceu porque fui com um amigo meu, lá de Alcântara, da minha criação, infelizmente já falecido, que me espicaçou e íamos os dois... Esse sim, esse amigo meu era de facto aficionado a valer. Mais tarde teve um filho que chegou a ser novilheiro...
Mas foi um pouco por influência. Como era alto e muito magrinho, achava-se que eu tinha figura de toureiro. Mas era só figura... E desisti porque não tinha dinheiro para as aulas e se calhar engenho também não.

LSH- Uma vez que decidi não falar, ou pelo menos tentar, com o meu amigo sobre futebol, interessa-me mais o homem que o ídolo...
GF- Mas não se acanhe. Sobre coisas do meu tempo eu não me importo, pode falar à vontade, agora estar a discutir sobre o jogo de ontem, se foi penalti ou se estava off-side, isso é que não. A vida de um homem não deve ser isso, deve ser mais enriquecedora. É aliás um drama que eu tenho, pois como joguei toda a gente entende que só quer falar comigo sobre futebol, ora eu também gosto de ler um bom livro ou ver um bom filme e igualmente de discuti-los...
Digo-lhe sinceramente que não acompanho o futebol de hoje. Vou de vez em quando à Tapadinha ver o meu Atlético, como sabe, estar um pouco com velhas amizades e resume-se a isso. Gosto de ir à Tapadinha sobretudo para rever os homens do meu tempo que ainda lá param, no fundo para estar com os amigos, e claro, que depois o Atlético, mesmo não sendo hoje um clube de topo, ainda me desperta emoções.

LSH- Então apreciou os 3-0 ao Marítimo...
GF- Claro, e mesmo quando lá não vou que, como sabe, não é sempre, acompanho sempre o percurso do Atlético via jornais. Quando não vou à Tapadinha a primeira coisa que faço à Segunda-Feira é comprar o jornal e saber o resultado do Atlético. Tenho pena é que esteja numa posição periclitante na tabela...

LSH- Não está bem mas acredito que nos vamos safar (não nos safámos - n.d.r.), uma vez que com a chegada do Rodrigues Dias a equipa encontra-se em franco ascendente.
GF- Rodrigues Dias é o nosso treinador?! Mas o filho?...

LSH- Não. Não é filho do do Sporting. Ele já esclareceu isso. Trata-se apenas duma coincidência de apelidos.
GF- Nas últimas jornadas aquilo de facto tem melhorado, já não perdemos há meia-dúzia de jogos. Esperemos que essa melhoria se mantenha.

LSH- E o próximo é fora, na Amora, vai ser terrível...
GF- Meu amigo, agora todos os jogos são terríveis até final do Campeonato.

LSH- Uma vez que me permite, falemos então um pouco de futebol. Deixou de jogar exactamente quando?
GF- Eu no Benfica deixei de jogar em 1968, depois tive um convite para ir para o Salgueiros, pois tinha interesse em ir para o Porto, sair de Lisboa, por questões meramente pessoais e que não desejo divulgar. E fui para o Salgueiros. Estive lá cerca de meia época, penso que uns seis ou sete meses e a partir daí encerrei a carreira e nunca mais joguei futebol.

LSH- Falou-me há pouco de cinema. Costuma ir ao cinema?
GF- Vou e gosto muito. Foi uma das minhas grandes paixões...

LSH- Ainda gosta de ver o Marlon Brando?... Sei que era um dos seus preferidos...
GF- Agora já não vejo, agora ele raramente aparece e faz papéis inclusivé secundários... Mas efectivamente apreciava muito o Marlon Brando.

LSH- Portanto temos aqui uma trindade de paixões... Futebol, Toiros e também o Cinema... Nunca teve a veleidade ou a curiosidade de fazer cinema?
GF- Nunca. Era absolutamente uma paixão passiva. Dava-me imenso prazer, e ainda dá, estar sentado a olhar para o ecran a assistir a filmes, de preferência bons... Quando tinha tempo enfiava-me sempre numa sala de cinema, várias vezes por semana. Era uma paixão sustentada por um vício praticamente diário. Era o Éden, a Promotora e o Palatino, todos com bons filmes e com filmes diferentes todos os dias.

LSH- O Éden, o Éden-Cinema, mais conhecido por Éden-Piolho, o da Rua do Alvito?
GF- Esse mesmo... E também frequentava muito o Cinearte que não estando tão próximo, também era alvo das minhas incursões cinéfilas. Havia também o Belém Jardim, próximo do actual Centro Cultural de Belém. Juntavam-se vários amigos e íamos ao cinema. Era também o pretexto para o convívio. Viam-se os filmes e depois falávamos sobre eles... Passavam-se tardes ou serões muito agradáveis. Eram cinemas de reprise, alguns de programação dupla, ou seja viam-se dois filmes por sessão...

LSH- Com que ocupa o seu tempo hoje em dia?
GF- Não faço nada. Estou reformado.

LSH- Reformado da bola?
Pela segunda vez, Germano sorri. Duas vezes é certamente uma dádiva, face a um homem cuja fama é precisamente de nunca o fazer.
GF- Não. Reformado das Selecções do Reader's Digest. Depois da bola, tornei-me funcionário das selecções e aí permaneci até à idade da reforma. Tive lá cerca de vinte anos. E é daí que vem a minha reforma pois como jogador da bola, do meu tempo, nunca ganhei nenhuma fortuna. Com o que se ganhava no meu tempo eu ainda teria que andar a jogar hoje se quisesse ter uma reforma algum dia, com certeza... Para garantir a subsistência.

LSH- Esta não é de resposta obrigatória. Quanto é que foi ganhar quando foi para o Benfica?
GF- Não me lembro, sinceramente. Aquilo oscilava porque tinha a ver com os resultados, prémios de jogo, etc.
Dava para viver bem mas nada que permitisse precaver o futuro. Havia um salário base mas sinceramente não me recordo quanto. Éramos pagos da seguinte forma: davam-nos um envelope no final do mês com essa base mais algum em função das vitórias ou dos pontos conquistados.

LSH- Inflectindo mais uma vez para o futebol, qual é o momento que considera mais importante na sua carreira? Ou aquele que lhe tenha dado mais alegria?
GF- Não sei. Foram tantos. Um deles foi certamente o título de Campeão que ajudei o Atlético a conquistar, no final dos anos 50 e que recolocou o Clube na 1ª Divisão.

LSH- O da final de Leiria?
GF- Esse. Porque eu quando estive afastado, por doença, do futebol, e não quero falar disso, porque isso iria atrapalhar muita gente e não é necessário. Não quero porque até clubes grandes sairão afectados se falar disso. Por isso não quero. Dizia eu, o Atlético tinha descido de divisão, eu estava a ser aliciado pelo Benfica. A proposta era absolutamente irrecusável, para a época, e o Atlético de forma alguma a podia cobrir, mas acordei em sair, fazendo questão de deixar o Atlético na Primeira Divisão. Para mim era ponto de honra. A coisa correu bem. A Taça veio para a Tapadinha e eu transferi-me para o Benfica...

LSH- No ano em que o Atlético era conhecido pelo "chapa 4"...
GF- É verdade. Marcávamos muitos golos, em média quatro por jogo, daí a alcunha...

LSH- É um recorde que ainda pertence ao Atlético, mais de 120 golos marcados numa época, e num ano em que uma época eram 26 jogos apenas. Esse recorde ainda perdura.
GF- Não sabia...

LSH- Foi um namoro ainda grande, o do Benfica com o senhor?! Não foi?
GF- Foi porque naquela época era muito difícil haver transferências pois os jogadores estavam à mercê das decisões das direcções dos clubes. Quando se jogava por um emblema isso podia ser para toda a vida. Em junior assinava-se o contrato e só se saía quando o clube quisesse, por isso as conversações entre Atlético e Benfica eram morosas, até porque, compreensivelmente, em Alcântara ninguém queria que eu saísse. A coisa resolveu-se penso eu, com o Atlético a tirar proventos monetários da minha transferência para o Benfica e o negócio fez-se. Fui para o Benfica. Julgo que fui um bom negócio para o Atlético pois formaram uma equipa que lhes permitiu uma continuidade na 1ª Divisão.

LSH- No Benfica, para além de vários títulos em campeonatos e Taças de Portugal conquistadas, houve as Taças da Europa...
GF- Que é que eu posso dizer? Foi um grande momento. Tínhamos uma grande equipa, uma equipa maravilhosa, foi um trabalho de circunstância uma vez que apareceu um lote muito bom de jogadores que tornou possível criar essa equipa fantástica. A coisa surtiu, fomos ganhando os jogos e as Taças vieram para Lisboa. A equipa técnica era extraordinária e tínhamos uma direcção que nos apoiava e acarinhava muito, quiçá a parte não menos importante do processo.

LSH- E era o país inteiro atrás do Benfica nessa época.
GF- Isso é evidente e era muito confortante. Éramos uma equipa portuguesa e quero lembrar que nessa época só jogavam jogadores portugueses, estando estatutariamente proibidos os estrangeiros. Isso também ajudou a identificar a equipa como um clube nacional e, evidentemente, interessava à "situação".

LSH- E o terceiro lugar no mundial de 66?
GF- Eu não fui para Inglaterra como titular e só joguei um jogo na fase final, joguei outros mas na fase de apuramento, mas é claro que isso me deixou muito satisfeito. Foi um momento ímpar em que sentimos o país inteiro connosco quando regressámos.

LSH- Mas não ter chegado à final não vos deixou com a velha ideia da "morte na praia"?
GF- Repare, quando soubémos qual o grupo que nos calhara nós pensámos que não tínhamos hipóteses... Era a Hungria, a Bulgária e o Brasil... Pusémos literalmente as mãos à cabeça. A Hungria era na época uma potência do Futebol, o Brasil era bi-campeão, a Bulgária era também uma excelente selecção... Pensámos: estamos tramados. Não chegamos a parte nenhuma... Enfim, passar isto já foi lucro. Ora depois chegámos ao 3º lugar... Falar-se hoje que poderíamos ter sido campeões é uma exigência que não se enquadra no espírito da época... É claro que o público queria e nós também, mas não foi possível, apesar da galvanização de todos... Podíamos ter sido campeões mas também podíamos não ter passado a fase dos grupos e hoje nem se falava do Mundial de 66.

LSH- E o famoso jogo com a Coreia que, penso, não jogou...
GF- Não joguei não. Penso que levámos aqueles três golos por excesso de confiança face aos resultados anteriores, depois felizmente houve cabeça para fazer a emenda... A Coreia enfrentou o jogo com uma postura quase religiosa, que tem a ver com os orientais, o que os fez empolgar. As coisas correram-lhes bem e quando demos por isso estávamos com o conhecido 3-0. Felizmente tínhamos o Eusébio que efectivamente marcava a diferença e conseguiu-se inverter o resultado.

LSH- O seu lugar era de defesa central...
GF- Quero fazer uma pequena referência que muitos poucos conhecem. Eu joguei nos Juvenis e nos Juniores do Atlético e era Guarda-Redes. Só depois passei a ser central pelo simples facto de que foi preciso um em determinado jogo. Foi um treinador espanhol que fez isso (Pedro Areso? - n.d.r.). Saiu-me a mim, servi muito bem no lugar e "avancei no terreno". Depois, curiosamente, nas internacionalizações, pela Selecção, embora jogasse a defesa central no Atlético, era sempre posto a jogar por Portugal em posições mais avançadas, geralmente a meio-campo. Foi assim nas primeiras quinze vezes...

LSH- Mas houve um dia em que teve que regressar à baliza, não do Atlético, mas do Benfica, para as Taças da Europa, quer contar-me essa história?
GF- Isso foi numa final da Taça da Europa, em 1965, contra o Inter de Milão. Aquilo estava a correr muito mal, o Guarda-Redes saiu, sabia-se que eu já tinha sido keeper e que tinha propensão para isso e fui mandado para lá.

LSH- Foi salvar a equipa...
GF- Salvar não porque nós já estávamos afogados...

LSH- A honra... A honra...
GF- Não sei, pelo menos não entrou mais nenhuma...

LSH- Conta-se que ainda houve tempo para algumas boas defesas...
GF- Talvez... Talvez...

E ficámos com um sorriso nos lábios de Germano de Figueiredo e a memória, talvez, numa malfadada final europeia.

Este artigo tem a autoria de Luís Sampaio Howell, é o nº 16 da colecção "As Nossas Glórias" e foi originalmente publicado no jornal "O Atlético" nº 66, Julho de 2006.

Actualizado em Domingo, 31 Janeiro 2010 01:09
 
 
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