|
Nasceu em Buenos Aires, Argentina, a 14 de Dezembro de 1924. Cedo se iniciou nos segredos do futebol e, aos 15 anos, já representava o Huracán, colectividade onde permaneceu quatro temporadas.
Depois o Nueva Chicago, clube da 2ª Divisão-B, reparou nas suas prometedoras qualidades futebolísticas e adquiriu-o por 10.000 pesos argentinos. Ali jogou até 52-53.
Na época seguinte veio para Portugal, para o Atlético, em transferência não isenta de alguns problemas, já que Mesiano, entretanto, quis envergar a camisola do River Plate, mas o Nueva Chicago negou-lhe a possibilidade de realizar o sonho da sua vida - defender as cores do clube dos "seus amores". Gerou-se polémica. Felizmente, para nós, alcantarenses, quando Enrique Mesiano já tinha o consentimento para jogar no River Plate, a notícia chegou-lhe demasiado tarde. Já vinha a bordo do paquete "Corrientes", rumo a Alcântara, onde o nosso clube o esperava de braços abertos.
Estreou-se com a camisola "atlética" no Torneio de Abertura onde, para além do nosso Grémio, participaram também o Oriental, o Barreirense, o Lusitano (de Évora) e o Vitória (de Setúbal). No jogo da sua estreia, contra o Lusitano Ginásio Clube, no antigo Campo dos Arcos, em Setúbal, celebrado a 20 de Setembro de 1953, o Atlético impôs-se ao conjunto eborense por claros 4-0, com tentos de Álvaro (2), Imbelloni e Castiglia. Recordemos como formou a nossa equipa: Ernesto de Oliveira; Valente Marques, Germano de Figueiredo e Vítor Lopes; Armando Carneiro e Vítor Gaspar; Álvaro, Mesiano, Américo Barbosa, Imbelloni e Silva Pereira. Aos 14 minutos da segunda parte, Silva Pereira, o malogrado "Pato", levou uma valente "pantufada" do lateral-direito alentejano, Soeiro, e foi substituído por Mario Castiglia que assim faria, também, a sua estreia na equipa de Alcântara-Santo Amaro. Era a estreia do famoso trio argentino. Curiosamente, pois pela primeira vez alinharam juntos os três famosos jogadores argentinos - Mesiano, Imbelloni e Castiglia, trio que deu brado no futebol português, pela sua extraordinária categoria.
Enrique Mesiano tornar-se-ia num símbolo do nosso clube. Extremo-direito hábil, veloz e lutador, parecia ter nascido em Alcântara, tal a genica e empenho que, em cada jogo, empregava. Esteve ao serviço do Atlético durante bastantes épocas, tanto na I Divisão, como no escalão secundário, mas foi a 8 de Março de 1959, no Estádio Municipal de Leiria, naquela célebre final do Campeonato Nacional da II Divisão, quando vencemos o Leixões por 3-0, com os três tentos da sua autoria que, definitivamente, passou a engrossar a lista das figuras alcantarenses mais gloriosas. Naquela tarde chuvosa, com os adeptos "atléticos" a darem largas ao seu entusiasmo, Germano de Figueiredo, capitão da equipa, completamente enlameado, erguia a respectiva Taça, entregue, momentos antes, pelo Governador Civil de Leiria. Mas, como assinalámos, o grande herói da histórica jornada foi Enrique Mesiano, graças ao seu hack-trick, golos obtidos aos 15, 17 e 26 minutos da etapa complementar. Eis como alinharam os campeões: Pinho; Tomé, Alvarez e Fonseca; Germano de Figueiredo e Orlando Paulos; Mesiano, Carlos Gomes, Álvaro Inácio, Albano e Angeja.
Enrique Mesiano, para além de magnífico futebolista, era uma jóia de moço, alegre, divertido, sempre com um sorriso à flor dos lábios, e rapidamente se adaptou às características bairristas do Atlético, granjeando inúmeros amigos. Quando pendurou as chuteiras e resolveu regressar à sua Argentina natal, quase "teso" (naquele tempo não se pagavam os chorudos salários actuais), fez-se uma colecta para que pudesse levar mais alguns tostões na algibeira. Na hora do adeus, no momento da despedida, emocionado e agradecido, com os olhos molhados por grossas lágrimas, a todos abraçava e não se cansava de proclamar: - "Como o Atlético não há nada, como Alcântara não há nada"...
Este artigo tem a autoria de Carlos Fernandes, é o nº 21 da colecção "As Nossas Glórias" e foi originalmente publicado no jornal "O Atlético" nº 71, Dezembro de 2006. |