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Manuel Esteves "Rasga" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Atlético Digital   
Quinta, 10 Junho 2010 21:31

Futebol. O massagista do Santo António esteve à conversa connosco, recordando cinquenta anos de carreira desportiva, durante os quais foi jogador, treinador e massagista. Memórias dos torneios populares, o seu carinho para com o Desportivo dos Olivais, episódios como massagista no CACO... De tudo se falou um pouco!

A carreira futebolista do "Rasga" teve início na década de 50... Para ajudar a uma melhor contextualização do futebol nesses tempos, pensando nos mais jovens ou naqueles mais afastados dos locais por onde passou o nosso entrevistado, convém esclarecer o significado de expressões como "Clubes Populares" ou "Torneios Populares". Esse era um tempo em que grupos de amigos podiam improvisar um clube, que no vazio legislativo de então sobre essa matéria, nem precisavam de qualquer legalização. Claro está, os fundos que conseguiam reunir não eram de molde a proporcionar-lhes ter campo próprio... Por isso, os Clubes Populares jogavam principalmente em Torneios Populares, normalmente disputados no Verão, e que era uma forma também dos detentores de espaços como o Campo do Palmense ou o "Francisco Lázaro", entre outros, os rentabilizarem. Com a entrada em vigor de leis específicas na década de 70, aliadas às alterações no tecido urbano na região da Grande Lisboa, muitos desses clubes não resistiram e fecharam as portas, não sendo hoje mais do que uma recordação.

Manuel Oliveira Esteves "Rasga" começou a sua carreira futebolística em 1950, então como júnior. Dois anos depois saiu dos Campeonatos Populares e já como federado chegou a integrar a equipa de "aspirantes" do Benfica em 1954, orientada então por Francisco Ferreira. Já na década de 60 deixou o futebol activo e enveredou nos primeiros anos por uma carreira de treinador em Clubes Populares, intercalada por funções de massagista. A partir de 1963 dedicou-se em exclusivo à vertente de massagista, até hoje... Uma vez que, aos 79 anos, sente que é chegada a altura de se "reformar"!

De tudo isto ele nos falará mas, para já, vamos falar de acontecimentos recentes... Uma vez que a entrevista foi gravada no passado dia 23 de Maio, no rescaldo da derrota do Santo António frente ao Algés, por 2-1, quisemos em primeiro lugar saber como tinha visto esse jogo. Foi complicado...
Foi complicado e sinto que não nos deixaram ganhar... Embora a equipa também se tenha desorientado um bocadinho!

Três expulsões e uma grande penalidade, pesaram...
Pois! Se não fossem as expulsões, teríamos ganho o jogo.

Isto não invalida que o Santo António tenha feito uma boa época. Esperava vê-lo a lutar pela subida até à última jornada?
Sim... Aliás, contava mesmo com a subida de divisão! Seria uma alegria para o Clube e uma satisfação para mim.

Já sabemos que tem um longo passado desportivo... Fale-nos dele: por onde começou?
Comecei pelos Pequenos Leões das Oficinas de São José, dos padres... E filial do Sporting, também. Repararam em mim e daí passei para os clubes populares, entre os quais destaco o União Desportivo Clube (nota da redacção: clube do Casal Ventoso). O ponto de viragem para mim ocorreu após o primeiro torneio popular na Tapadinha, isto em 1951. Fui para o Esperança (nota da redacção: pensamos tratar-se do Esperança Atlético Clube) e, pouco depois, estava noutros clubes. Estive nos "aspirantes" do Benfica e daí saí para representar o Desportivo dos Olivais, nome antigo do actual Olivais e Moscavide.
Nessa altura havia outro clube também interessado em mim, o "Operário" de Vila Franca (nota da redacção: Clube de Futebol Operário Vilafranquense, um dos clubes que, após fusão, deu origem à actual União Desportiva Vilafranquense), só que eles não me davam o que eu queria... De modo que optei antes pelo Desportivo dos Olivais e não me arrependi, é o clube do meu coração!
Para além de jogar, treinei equipas amadoras, casos do União, "Domingos Sávio" e Santana (nota da redacção: Clube Recreativo de Campo Santana). Neste último chegámos quase à final, mas fomos prejudicados.

Além do futebol, jogou também hóquei em patins?
Não. Nessa modalidade desempenhei apenas funções de massagista, isto no CACO (nota da redacção: Clube Atlético de Campo de Ourique). Fui massagista em muitos clubes, entre os quais o Santo António. No primeiro convite que me fizeram fiquei cá dois anos seguidos, depois parei um ano e regressei novamente. Agora irei parar porque preciso de descansar. Já não sou novo, vou fazer em Junho 79 anos... Muitos dos quais dedicados ao desporto.

"Rasga"... Qual é a origem?
Isso surgiu num jogo popular no Casal Ventoso, numa altura em que jogava pelo União. Havia um adversário que queria fugir, fui-lhe no encalço, agarrei a manga e arranquei-a da camisola... Fiquei com a manga na mão, daí puseram-me a alcunha do "Rasga" (risos).

Num passado como o seu, terá certamente muitas histórias para contar... Conte-nos algumas, das suas favoritas!
Olhe... Recordo-me de uma final pelo Desportivo dos Olivais, frente ao Palmense, que ganhámos e assim subimos de divisão, da segunda para a primeira regional (nota da redacção: época de 1957/58. O Palmense estava na primeira e acabou por descer à segunda). Tinha levado um pontapé no tornozelo que me causou entorse... Mas falei com o massagista, que me ligou bem o pé. O teinador estava desconfiado da minha condição e testou-me, mas com jeitinho, sem chutar com o peito do pé, mas sim de lado, convenci-o de que estava bem. Ele colocou-me a jogar e não só ganhámos, como ainda fui considerado o melhor em campo!
Para mim foi uma alegria... Não só pela subida de divisão, como pela perspectiva de vir a defrontar jogadores de outro nível. Entre estes destaco o Mota, antigo avançado-centro do Estoril, jogador então muito falado, da primeira divisão nacional (nota da redacção: como se depreende, "Rasga" era defesa).

Outra recordação que tenho do Desportivo dos Olivais, esta mais amarga, prende-se precisamente com o meu jogo de estreia, contra o Sintrense, em Sintra, onde fui expulso no último minuto! Em toda a minha vida, essa foi a minha única expulsão. Nunca tinha sido expulso antes, nem voltei a ser, fosse em que jogo fosse. Sabia-me comportar e, com o tempo, cheguei mesmo a "capitão" de equipa.

Já no Campo de Ourique, além do hóquei em patins, cheguei também a ser massagista na equipa feminina de andebol. Tratava-se de raparigas oriundas do liceu "Maria Amália", que vieram para o clube jogar sob o nome deste. Formalmente não era massagista delas, mas tratava das que se aleijavam... De tal modo que, quando viajaram para a Holanda, para disputar a fase final da Taça, visto terem sido campeãs cá, queriam que eu fosse com elas. A Direcção do Clube não o permitiu, dizendo-me que precisavam de mim no hóquei. Um dos directores acabou por demitir-se por causa deste episódio e no meio disto tudo, fiquei arreliado e com vontade de sair!

Hoje é reformado... O que fazia antes?
Era vidreiro, numa fábrica de vidros que faliu. Fui então para a reforma, uma reforma razoável e que me permite uma vida normal. Agora vou "reformar-me" também do Santo António. Penso que eles não levarão a mal... Até porque vou continuar a acompanhar a equipa e, naquilo que for preciso, contam com a minha ajuda.

 
 
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