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Manuel Candeias foi, durante mais de uma década, sinónimo de Atlético.
De facto, este homem que não nasceu em Alcântara, mas que cedo veio para cá viver, envergou durante 18 anos a nossa camisola, muitos dos quais, também, com a braçadeira de capitão do nosso primeiro team. Hoje, com 62 anos, reformado, e em recuperação de uma intervenção cirúrgica, fomos encontrá-lo bem disposto e entabulámos com ele conversa, aproveitanto também o facto de, nesta edição, lhe dedicarmos a contracapa.
O Atlético (A)- Foi recentemente operado, pelo nosso querido Dr. José Godinho Feio, a um problema que lhe surgiu, julgamos que na base do Fémur. Como é que aconteceu, como é que correu? Manuel Candeias (MC)- Esta foi uma situação que sucedeu, que pode acontecer a qualquer um e que, curiosamente, nada teve a ver com a prática do futebol, enfim, com a minha carreira desportiva. De facto, houve uma parte do osso que desgastou anormalmente, provocando-me dores terríveis. A opção foi a intervenção cirúrgica, optando o Dr. José Feio, que foi o meu médico, o meu ortopedista, durante toda a minha carreira desportiva, pela colocação de uma prótese, para que deixasse de ter dores e retomasse um caminhar normal. Essa intervenção correu, felizmente, lindamente, basta dizer que fui operado no passado dia 20 de Fevereiro e já recuperei quase toda a mobilidade, já larguei inclusivamente as muletas, portanto só não irei voltar a jogar à bola (risos) mas poderei fazer praticamente tudo.
A- Candeias, você é um homem que esteve sempre ligado ao nosso clube. Viveu em Alcântara, cresceu em Alcântara, trabalhou em Alcântara, jogou em Alcântara, fez a sua carreira quase toda em Alcântara, enfim, só lhe faltou, talvez, nascer em Alcântara, embora até haja muito boa gente que assim pense, como foi isso? MC- De facto tudo isso é verdade, só me faltou efectivamente ter nascido em Alcântara, então, para que se saiba, eu gosto muito do Atlético e de Alcântara, cá passei óptimos anos mas não renego a minha terra, eu nasci na Beira Baixa, concelho do Fundão, numa aldeia chamada Orca, em 24 de Outubro de 1944, mas vim com seis meses para Lisboa, para Alcântara. Isto faz com que sinta Alcântara como minha terra. Eu até, talvez, seja muito mais alcantarense do que muitos alcantarenses, em virtude do tempo, dezoito anos, durante o qual enverguei a camisola do Atlético. Dezoito anos, oficialmente, a nível federativo, porque ainda estive, desde os nove anos de idade, nas escolas do Atlético, até aos 14 anos, altura em que, no meu tempo, se começava a jogar à bola, em termos federativos. Assim, foram vinte e três anos no Atlético. Foi um período muito bom da minha vida, não estou nada arrependido desses anos que passei na Tapadinha; gostaria de frisar que se fosse hoje, que eu tivesse idade para jogar à bola, que a minha vida se proporcionasse, como se proporcionou, empregado bancário e jogador de futebol, não deixaria de ser novamente o jogador do Atlético Clube de Portugal, que fui até à altura em que, praticamente, concluí a minha carreira.
A- Disse praticamente. De facto o Candeias jogou sempre no Atlético Clube de Portugal, com excepção do seu último ano como jogador, a época de 1976-1977, em que envergou a camisola do Clube Desportivo. Foi na época uma transferência que deu muito que falar e que dividiu os alcantarenses. Afinal porque é que isto aconteceu? MC- Sabe, isso é uma mágoa que para mim, ainda é hoje doloroso de recordar. Eu não tinha necessidade nenhuma de ir terminar a minha carreira ao Montijo, e a forma como eu saí do Atlético, enquanto jogador, ainda hoje me entristece. Minha saída não foi pacífica, penso que algumas pessoas das direcções da altura me deveriam ter apoiado, resguardado, de outra forma, e isso magoou-me imenso, porque eu estou convencido que se não tivesse saído do Atlético e não tivesse sido operado agora, se calhar ainda jogava no Atlético (risos) tal era a vontade de vestir aquela camisola, tal era o amor que tinha pelo clube, pois era um atleta que sentia que o Atlético podia ser mais, podia ser maior do que era nesse tempo. A história resume-se a isto. Finda a época de 1975-1976, o Atlético acabara de assegurar a manutenção na 1ª Divisão classificando-se em 10º lugar. Chegou então um treinador novo à Tapadinha que depois de fazer uma breve análise ao plantel disponível concluiu que eu deveria ficar 15 dias à experiência. Pode concluir o que senti, eu Manuel Candeias, que há mais de vinte anos caminhava diariamente para a Tapadinha agora teria que me sujeitar a quinze dias de experiência. Foi um insulto. E não houve ninguém que explicasse àquele homem que eu era "dos da casa", como seria normal numa situação desse género. Obviamente que não me submeti aos tais quinze dias de experiência. Como estava, formalmente, sem contrato, firmei um com o Clube Desportivo do Montijo, na altura também primodivisionário, onde joguei uma época e encerrei a minha carreira de jogador. Saí do Atlético deixando-o na 1ª Divisão Nacional. Quatro anos depois o Atlético estava na 3ª Divisão e devo dizer que nunca vi o Atlético jogar na 3ª Divisão. Recuso-me a ver o meu clube a jogar nessa Divisão, porque não consigo subir aquela rampa de acesso ao Estádio e sentir que o meu clube estava a jogar nesse nível. Que me perdoe a massa associativa do Atlético.
A- O Candeias jogou no nosso primeiro team durante quase toda a década de sessenta e durante a primeira metade dos anos 70, só não sendo o último capitão de equipa do Atlético, dos tempos da 1ª Divisão, devido ao facto anteriormente abordado. Sendo um homem que jogava numa posição recuada, quarto defesa, como se dizia na altura, teve o privilégio de marcar grandes nomes do futebol nacional, tais como Eusébio, o argentino Yazalde, ou o peruano Cubillas; eram confrontos difíceis? MC- Digamos que homens como esses que citou, e outros que também houve, davam geralmente "água pela barba" e eram alvo prévio de atenções redobradas. Eu tinha sempre esse cuidado redobrado mas, evidentemente, nem sempre era coroado de êxito, com o Eusébio, por exemplo, um homem que muito estimo, tive sempre uma grande amizade com ele, uma relação de cordialidade acentuada, muito embora os jornais dissessem, alimentassem a ideia de que haveria algum desentendimento ou quezílias entre nós os dois, isso é absolutamente falso, respeitámo-nos sempre mutuamente; agora, é claro que toda a gente sabe que o Eusébio era "osso duro de roer", era um adversário muito forte e portanto difícil de fazer parar, ora como eu não era um jogador do género de "dar porrada", como se costuma dizer, era certo que isso me custou que por vezes ele levasse a melhor. Era um tipo rapidíssimo, de remate potente. Só tenho pena de não ter conseguido cumprir o meu papel a cem por cento, uma vez que nalguns casos foi mesmo golo do Eusébio. Neste aspecto penso que realmente fui um jogador privilegiado pois fiz parte, como fazia o Atlético, na altura, da fina-flor do nosso futebol e tive oportunidade de me confrontar directamente com a "nata" da época, que incluíam nomes como os que anteriormente citou. Convém no entanto referir, e eu tenho tenho uma opinião muito particular, que, ao contrário do que se costuma dizer, em relação ao antigamente, que "naquele tempo é que era bom, naquele tempo é que se jogava", eu julgo que não, que o futebol nos últimos 20 anos se tornou muito tecnicista e metódico e se é verdade que no meu tempo havia bons jogadores, bons marcadores, bons executantes, hoje também os há, não haja dúvidas sobre isso, embora sejam executantes com as características do futebol de hoje, naturalmente... Não é por acaso que as nossas selecções se têm guindado ao mais alto nível, e não é por acaso que hoje temos jogadores nacionais a jogar pelos diversos cantos do mundo...
A- Durante as duas décadas em que envergou a camisola de Alcântara e Santo Amaro, a camisola do Atlético Clube de Portugal, certamente muitas coisas sucederam que o faz guardar muitas recordações. Umas boas, outras nem por isso. Quer recordar dois desses momentos que o tivessem marcado? Um pelo lado positivo, outro pelo lado do nem por isso... MC- Pela positiva, gostaria de dizer-lhe que tive o privilégio de ter sido o último Campeão da 2ª Divisão Nacional, pelo Atlético Clube de Portugal. Estava de facto nessa equipa que, em 1968, defrontou e bateu, por 3-2, no Restelo, a União de Tomar. É o único título que tenho, em futebol, e guardo desses momentos, dessa época fabulosa, gratas recordações; pela negativa, pelo lado menos bom, foram aqueles anos de enervante "sobe-e-desce" em que o Atlético ora baixava à 2ª Divisão, ora regressava ao convívio dos grandes; as recordações menos boas referem-se evidentemente aos momentos em que se descia de divisão. Era um momento de grande tristeza.
A- Candeias, depois do futebol, e até hoje, o que é que aconteceu ao Candeias depois de deixar de jogar à bola? MC- Depois ainda regressei ao Atlético, tendo sido treinador das equipas jovens durante uma boa meia-dúzia de anos, e cheguei mesmo a treinar, durante meia-época, o team principal, os seniores. Também cheguei a treinar outros clubes como o Almada ou o Atlético da Malveira. Em termos profissionais continuei a exercer a minha actividade enquanto bancário, da qual me reformei. Continuo a ter uma vida normalíssima, com alguns espinhos, como foi o caso desta operação. Mas já passou...
A- Sabemos que o Candeias é um devoto do clube e que gostaria de ver o Atlético a voar novamente mais alto. O que pensa sobre isto? MC- Será certamente um caminho muito difícil mas é possível. Eu tenho um sonho. O Luther King também teve, há várias personalidades mundiais que também sonharam. Eu sempre me habituei, desde criança, a ver, no Largo de Alcântara, as pessoas mais velhas, e sabe, no meu tempo não havia muita coisa para se fazer ou onde ir, por isso ia-se para a sede do Atlético ouvir os mais velhos. Eu recordo-me que naquela época saíra num extrato dum jornal uma notícia em que Salazar afirmava que o Estádio da Tapadinha haveria de ser doado ao clube. Não se percebe porque nunca ninguém fez valer isso. Julgo que um clube com património tem muito mais pernas para andar. Sabemos que o Atlético tem algum, graças a Direcções mais recentes, mas é indispensável, penso eu, que o Atlético seja dono da sua casa para ganhar poder de diálogo e poder voar mais alto. Na minha opinião, e eu quero que isto fique bem claro, não estou a fazer acusações a ninguém; na minha opinião eu julgo que o Atlético tem perdido milhares de contos pelo facto de o campo não ser seu. Repare que outros clubes da cidade, cujas instalações desportivas são propriedade sua, sempre que tem havido permutas de terrenos, têm lucrado com isso. O Atlético está fora deste barco e não se percebe porquê, na minha opinião, volto a frisar. Todos esses clubes têm sido bastante beneficiados pela Câmara Municipal de Lisboa. E eu faço a pergunta! E o Atlético? Que ganhou com isso? Quanto ao futuro, penso que, esquecendo e pondo de parte a hipótese de se embarcar numa dessas loucuras, que por vezes, e nos últimos anos, se têm visto no mundo do futebol; com objectivos muito claros e ponderados, seria possível repor o Atlético numa liga profissional, lugar que penso ter direito, até historicamente. Todos lucravam. A instituição em si; os atletas, pois isso significaria melhores meios e mais visibilidade; a população da área e até o comércio. Quem não se recorda como enchiam restaurantes e cafés, em Alcântara e Santo Amaro, em dias de jogo, nos tempos da 1ª Divisão. Afinal o que está à espera o comércio para dar a mão ao Atlético, visto que é também um grande interessado em que o clube apareça na ribalta?
Este artigo tem a autoria de Luís Sampaio Howell, é o nº 15 da colecção "As Nossas Glórias" e foi originalmente publicado no jornal "O Atlético" nº 64, Maio de 2006. |